MEDICINA e ESPIRITUALIDADE

DOUTORA, POSSA JOGAR FORA, ESTA RECEITA?

Relato da Dra Iracema Bahia de Sena

Atendia emergências, do recém-nascido ao idoso; das fraturas expostas por coices de cavalos a atropelos; da criança caída da laje à crise hipertensiva em adultos; dos pequenos cortes que exigiam suturas a outros que exigiam transferências, enfim, não se podia dizer que eram plantões tranquilos, naquele posto de um bairro popular e populoso.

Naquele dia, o plantão estava tranquilo, muito menos pacientes do que os 100-150 (já chegara a 200) atendimentos nas 24 horas, mas isso era uma particularidade interessante. Toda vez que era preciso dar atenção especial a algum paciente, coincidentemente, o número de atendimentos naquele dia, era menor.

Eram mais ou menos nove horas da manhã. Entrou desesperadamente no consultório um homem dos seus cinquenta anos, pedindo ajuda, sozinho, envolto por um cobertor de lã, surrado. Não fazia frio, ao contrário, nossa região é geralmente mais quente que fria, e nem era inverno, mas o homem se tremia todo sob o cobertor. Seu queixo batia freneticamente dificultando a fala, e seu corpo apresentava espasmos constantes. Minha impressão inicial foi que estivesse com calafrios por febre, mas o termômetro não acusava febre. Falou que havia bebido muito no dia anterior, e ao acordar naquela manhã, seu corpo tremia convulsivamente, acompanhado de um grande mal estar. Podia-se pensar em delirium tremens (síndrome de abstinência alcoólica) ou hipoglicemia por ingestão prolongada de álcool, mas o quadro não era característico. Enquanto falava, seu relato era interrompido por descontrolável extensão e rigidez dos braços, que se assemelhavam a duas tábuas, ao mesmo tempo que emitia um forte e rouco som, que fazia lembrar um cão rosnando. Nunca havia visto nada parecido, nos meus vinte e poucos anos de profissão, àquela época.

Um pensamento, quase que uma ordem, veio à minha mente:

-“Ponha a mão na cabeça dele”.

Olhei para todos os lados e não vi ninguém, fiquei meio apreensiva, sem saber o que fazer ou pensar. Embora desde criança tivesse uma atração especial por igrejas, templos e livros sobre espiritualidade, tinha um medo danado de espíritos, vozes do além, vultos e tudo mais do mundo invisível.

- Quem havia falado comigo e dado aquela ordem? E se fosse um espírito do mal???

Não obedeci e preferi agir como médica, não como curandeira, foi o que pensei. Ademais, o que o pessoal de enfermagem, da limpeza, outros pacientes e acompanhantes, iriam pensar, ao me verem colocando a mão na cabeça daquele senhor, ao invés de medicá-lo? Pensamento bastante lógico pra mim, naquela ocasião. Pedi ao paciente que se acalmasse, e tentei colocar o tensiômetro em volta do seu braço. Ao tocá-lo, ele apresentou novamente aquele espasmo e emitiu o mesmo som gutural, me provocando uma resposta automática. Gentil, porém firme:

- “Pare com isso, você é filho de Deus!”

Senti uma forte corrente elétrica penetrando pelo alto da minha cabeça, percorrendo todo meu corpo e saindo pela mão que o tocava. Sem entender nada, presenciei aquele homem se acalmar, e todos aqueles sintomas desaparecerem instantaneamente.

- “O que a senhora fez comigo, doutora?”

- “Eu? Não fiz nada, apenas tentei tirar sua pressão”.

- “A senhora me deu um passe, doutora, estou me sentindo muito bem”.

Até aquele momento, nunca tinha me interessado por passes. Estava estudando os ensinamentos da Bíblia e igrejas orientais, iniciava práticas meditativas, orações e mantras, mas não queria saber se possuía mediunidade ou não. Sempre conversei muito com Deus, a quem pedia ajuda, conselhos, orientações, e com quem desabafava. Nunca me senti sozinha, desde criança tenho a certeza de ser amparada pelo meu anjo da guarda, mas naquele instante pensei apenas que uma voz não material, tentava me dizer o que fazer, e isso me deixou assustada.

- Estaria eu tendo alucinações? Quem tentava controlar minha mente e minhas atitudes?

Logo após aquela experiência, ficamos ambos parados, tentando organizar os pensamentos. Lentamente ele se levantou, me agradeceu e disse que a partir daquele dia, iria seguir a Jesus Cristo. Não havíamos falado sobre religião nem citado o nome de Jesus. Parabenizei pela decisão, e recomendei abandonar a bebida definitivamente. O paciente chegou até a porta do consultório, parou e voltou.

- “Posso jogar fora esta receita do calmante que a senhora me deu, doutora?

- “Sim. Claro que sim, se você está se sentindo bem”.

Ele se foi feliz, e eu fiquei tentando entender os mistérios entre o céu e a terra.